Catarata: Procedimento Seguro, Execução Sob Pressão

Publicado por: Feed News
03/03/2026 03:18 PM
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Cirurgia de catarata é procedimento seguro quando protocolos de esterilização e biossegurança são rigorosamente seguidos.
Cirurgia de catarata é procedimento seguro quando protocolos de esterilização e biossegurança são rigorosamente seguidos.

Volume elevado pode comprometer margens técnicas de segurança?

 

A interdição da clínica Clivan, em Salvador, após relatos de quatro pacientes que perderam a visão de um dos olhos e dezenas com complicações no pós-operatório de cirurgias de catarata, não é apenas um episódio isolado. É um alerta contundente sobre o risco sistêmico quando volume assistencial e rigor técnico deixam de caminhar juntos.

 

A unidade teve o alvará sanitário suspenso pela Secretaria Municipal de Saúde e o convênio interrompido, inclusive para atendimentos pelo Sistema Único de Saúde. O caso também está sob análise do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia.

 

A clínica sustenta que todos os protocolos foram cumpridos e que realiza mais de oito mil cirurgias por ano. Ainda assim, o desfecho clínico de parte dos pacientes exige investigação técnica profunda.

 

Cirurgia de catarata: procedimento seguro — mas não infalível

A facoemulsificação com implante de lente intraocular é considerada um dos procedimentos mais seguros da medicina moderna. A taxa de complicações graves costuma ser inferior a 1% quando:

Há controle rigoroso de esterilização;

O fluxo cirúrgico respeita capacidade instalada;

Existe rastreabilidade de insumos e instrumentais;

O tempo entre procedimentos é adequado;

A equipe segue protocolos padronizados de biossegurança.

Quando múltiplos pacientes evoluem com perda visual em curto intervalo temporal, a hipótese técnica mais preocupante é endoftalmite infecciosa, uma inflamação intraocular grave que pode levar à cegueira irreversível em questão de dias.

 

O que pode ter ocorrido?

Sem laudos oficiais, qualquer conclusão é prematura. Contudo, sob análise técnica, cenários possíveis incluem:

1. Falha na esterilização de instrumentais

Reprocessamento inadequado pode permitir contaminação cruzada entre pacientes.

 

2. Contaminação de soluções intraoculares

Soluções irrigadoras ou medicamentos intracamerais podem ser fonte de surto.

 

3. Problemas em lote de lente intraocular

Raros, mas já documentados em literatura médica.

 

4. Pressão de produtividade em mutirões

Alta rotatividade cirúrgica pode reduzir margens de segurança.

 

5. Ruptura de cadeia de biossegurança

Desde manipulação até armazenamento de materiais.

 

Uma investigação epidemiológica deve responder perguntas fundamentais:

Os pacientes foram operados no mesmo dia?

O mesmo cirurgião realizou os procedimentos?

Houve uso de insumos do mesmo lote?

Existe cultura microbiológica confirmando infecção?

Sem essas respostas, qualquer narrativa será incompleta.

 

O dilema dos mutirões: acesso versus segurança

Mutirões de cirurgia de catarata são estratégia legítima para reduzir filas históricas no SUS. No entanto, quando há aumento de volume, o risco operacional cresce proporcionalmente se não houver:

Planejamento logístico adequado;

Capacidade instalada compatível;

Supervisão sanitária ativa;

Auditoria técnica independente.

O caso de Salvador coloca em debate não apenas a clínica específica, mas o modelo de execução dos mutirões no Brasil.

 

A responsabilidade sanitária

A Secretaria Municipal informou que a unidade possuía alvará vigente, mas optou por suspensão cautelar e abertura de processo administrativo sanitário. Isso indica que a regularidade documental não substitui fiscalização contínua.

Quando múltiplos eventos adversos ocorrem simultaneamente, o foco da análise não deve ser apenas individual (erro médico), mas sistêmico:

Gestão da qualidade;

Controle de infecção hospitalar;

Supervisão da vigilância sanitária;

Contratualização pública.

 

O impacto humano invisível

Para além de números, há vidas alteradas permanentemente.

Perda visual unilateral pode gerar:

Incapacidade laboral;

Comprometimento da autonomia;

Risco aumentado de quedas;

Impacto psicológico severo.

Em saúde pública, dano evitável não é estatística — é falha estrutural.

 

O que pacientes devem observar após cirurgia de catarata?

Sinais de alerta no pós-operatório:

Dor intensa e progressiva;

Vermelhidão acentuada;

Secreção ocular;

Visão turva que piora rapidamente;

Sensação de pressão intraocular.

Diante desses sintomas, a busca por atendimento deve ser imediata.

 

Transparência como dever institucional

A clínica afirma que o episódio é pontual e reafirma confiança em seus protocolos. A investigação técnica determinará se foi um evento isolado ou falha sistêmica.

O que se espera agora:

Divulgação de laudos técnicos;

Clareza sobre origem das complicações;

Assistência integral aos pacientes afetados;

Revisão de protocolos se necessário.

 

LEIA: Cegueira em Mutirão de Catarata: Erro em Procedimento da Santa Casa de Franca Deixa Pacientes com Danos Irreparáveis

 

Um alerta que vai além de Salvador

Casos como este não devem gerar pânico, mas consciência.

Cirurgia de catarata continua sendo segura e transformadora. Porém, segurança em saúde não é retórica institucional — é resultado de processos auditáveis, rastreáveis e verificáveis.

Quando múltiplos pacientes perdem a visão após um mesmo evento assistencial, o sistema precisa responder com ciência, transparência e responsabilidade.

A credibilidade da saúde pública depende disso.

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